Carlos Drummond de Andrade




Se fosse vivo faria hoje 112 anos. Recordo-o aqui através de um poema e de um texto.


                                                        QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

                                             
                                        QUEM NÃO TEM NAMORADO

   “Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas: de carinho escondido na hora em que passa o filme: de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d’agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.               Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteira: Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.”

Parabéns a Claude Lelouch

Recordo aqui, por ocasião do seu aniversário, o filme "Um homem e uma mulher" de Claude Lelouch, cineasta da "Nouvelle Vague", o qual tanto êxito teve na altura da sua estreia em 1966. Ficou famosa a sequência final num travelling circular que aqui trago:

Completo com uma breve referência a este movimento, cujos cineastas mais relevantes são Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer e Agnès Varda, muitos deles ligados, como críticos à revista "Cahiers du Cinema".

"As características mais marcantes deste estilo são a intransigência com os moldes narrativos do cinema estabelecido, através do amoralismo, próprio desta geração, presente nos diálogos e em uma montagem inesperada, original, sem concessões à linearidade narrativa. Os autores desta nova forma de filmar detestavam muitos dos grandes sucessos caseiros do cinema francês"

Nos Estados Unidos, e não só, fez-se notar a influência deste movimento, nomeadamente nos filmes de Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Martin Scorsese e George Lucas, renderam homenagem à vaga que começou a frutificar com o Bonnie and Clyde de Arthur Penn.


PASTORÍCIA

Junto duas fotografias que registei recentemente, (foto 1 e  foto 2) nas imediações da Ponte do Rol, junto a uma ponte que, segundo me disseram no local, pertence também à freguesia da Bordinheira. Não sei se seria este o sítio que deu origem ao nome da Freguesia uma vez que " o nome de Ponte do Rol deve a sua origem à passagem de um dos reis portugueses por aquele lugar, ao qual pedindo-lhe o povo que lhes mandasse fazer uma ponte sobre o rio Sizandro, ele prometeu-lhes que sim, tornando o povo na despedida a lembrá-lo, ao que ele respondeu "vai na ponta do rol".(Wiquipedia) Curiosamente, foi junto a uma ponte sobre o rio Sizandro, (a qual,  segundo me disseram no local, pertence a duas freguesias), que fiz as fotografias.



Das várias Escolas por onde passei, de uma guardo excelentes recordações.
Feita de barracões podres, de tabopan ou coisa parecida, com a Curraleira de um lado e a Picheleira, bairro antigo, do outro.
O Fernando Martins, que foi gente importante no Benfica, tentou (e conseguiu) que os autocarros da Carris que embandeiravam Picheleira (nome feioso, que ainda por cima se confundia com Curraleira!), passassem a dizer Olaias, o bairro que então construía para a alta burguesia da época.
Em frente da Escola morava uma pequena comunidade cigana que nunca causou problemas, àparte pequenas, mas raras,  quezílias familiares.
Volta não volta aparecia por ali a policia especializada para resolver conflitos a Sul e levar os traficantes para residências de pequena duração! Nessa ocasiões o portão da Escola fechava-se  e ninguém podia entrar, nem sair, porque, por vezes, havia balas a assobiar. Isso motivava contratempos, especialmente a quem tinha que ir buscar as crianças aos infantários ou programado um cineminha, um encontro ou coisa parecida!...
Este quadro nunca me perturbou e foi o melhor período da minha vida escolar. Dez anos ali estive. É certo que era dos poucos que tinha boas condições de trabalho, num grande Pavilhão gimnodesportivo, mas isso pesava pouco na balança.
A Escola chamava-se Cesário Verde, já não existe
O Cesário ficará.
Sempre.
Aqui o deixo para quem ama a Poesia


POR QUE NINGUÉM FALA DISTO ?

Dos solitários estacionamentos para bicicletas espalhados pela cidade e que não têm qualquer utilidade.
Das obsoletas marcações da Ciclovia das Escolas, e da ridícula sinalização vertical nos passeios da Henriques Nogueira  (Já alguém viu um ciclista a subir ou descer por ali?)
Da Ciclovia do Barro (uma alternativa ao automóvel, está escrito) a que só o parceiro Belmiro deu (por contrapartida) alguma importância, cujo traçado, depois de abalroar na entrada do parque do Sporting (uma autêntica espelunca ) termina abruptamente na  Expotorrres devido às obras do Terminal Rodoviário.
Para que serve este mamarracho?
Do Caminho Rural  Expotores - Foz do Sizandro (uma mais valia para os agricultores) é disso que se trata, mas pomposamente apelidada de "Ecopista do Sizandro" ... a primeira  ecopista do concelho", ( também está escrito ) e, nem assim, correctamente sinalizada.
Dos moribundos "placards" informativos  colocados na Expotorres,  a aguardarem apodrecimento definitivo.
Da inclusão da Ciclovia das Escola e da "Ecopista", no site da C.M. debaixo  das saias das "Agostinhas.
Do Programa das Ciclovias, luxuosamente propagandeado na Revista Municipal e que apenas serviu para inaugurar a primeira em 22 de Setembro de 2008, com a presença de padrinho ciclista e de todos os dirigentes. A primeira de um programa que inclui mais cinco (com padrinhos em lista de espera) e que deverá estar concluído em 2015.
Das duas (! ) passadeiras em tela para cegos na Henriques Nogueira. Se não tivessem posto nenhuma nem davam nas vistas...
Então o Plano de Mobilidade é só Automóveis,  Agostinhas, Bandeiras, Prémios, Discursos, Cidades inteligentes ....
 Não terá aqui cabimento a popular expressão de se ter andado a "atirar dinheiro à rua"?
 Junto alguma fotos que mostram PORQUE NINGUÉM FALA NISTO.

Estilo minimalista bem enquadrado no local. Cores suaves e pinos anti -vandalismo

Caminho da ciclovia

Miseria.   

 Vestígio 

Até a sinalização desapareceu

Não há Uma passadeira em toda a via

Nem a pé sede ir ver a morte lenta

Termino com mais uma esperançosa e inocente mensagem do Presidente da C.M.

"Há 40 anos atrás eram inúmeras as pessoas que se deslocavam de bicicleta para Torres Vedras, nomeadamente para a “Casa Hipólito” e para o “FAS”, sem ciclovias nem problema algum.
Daí para cá assistimos ao primado do automóvel que é rei e senhor do espaço público, seja ele qual for, inclusive dos passeios.
Não pode ser.
Temos de contrariar esta tendência.
A Câmara Municipal de Torres Vedras está a trabalhar nesta área com os melhores especialistas"